Paramos de desenhar telas. Aí o marketing pediu uma vista explodida
Deixamos de desenhar telas e passamos a prototipar em código. Quando o marketing pediu uma vista explodida da interface, a saída foi criar o stage-viewer: uma base real de cena 3D para a IA generativa refinar, em vez de recriar do zero.
Na Keeps, deixamos de desenhar telas. Hoje o protótipo é código, e a área de Product Design trabalha direto nele, um pouco na mesma linha do que descrevi ao adotar a lógica da IndieWeb no meu próprio portfólio: menos camada intermediária entre a decisão e o artefato publicado. Foi uma decisão boa, e eu não voltaria atrás. Mas ela cobrou um preço que só apareceu quando alguém do marketing precisou de uma imagem.
Uma decisão tomada na era da IA generativa
Essa mudança não veio de um dia para o outro, e não veio antes da IA. Comecei quando surgiram o Lovable, o v0 e o Bolt (e outras que já nem existem mais), gerando telas e fluxos direto em código. Fixei por um tempo no AI Studio, do Google, que oferecia entregas mais consistentes. Com o avanço dos LLMs especializados em código, passei a usá-los na linha de comando e comecei a desenvolver as nossas próprias ferramentas.
LangChain
Firebase
Langflow
Spline
Suno
Wispr Flow
HeyGen
Dreamina
HiggsfieldUma dessas ferramentas é a Central de Homologação, um painel que vive dentro do próprio protótipo. Ela permite navegar rapidamente entre as diferentes áreas, verificar casos de borda (corner e edge cases), popular o protótipo com dados mockados e abrir issues de correção que ficam registradas no repositório. Toda essa arquitetura facilita a integração com IAs e com processos automatizados. Vale um gostinho antes de seguir.

Como a Central de Homologação funciona e como estamos construindo esses protótipos ficam para o próximo post.
O que ganhamos ao prototipar em código
Um protótipo em código é a própria interface. Ele tem estados reais, navegação, componentes que se comportam como no produto e dados de demonstração que dão vida às telas. A conversa com quem avalia o fluxo muda: em vez de "imagine que este botão abre um painel", o painel abre.
Também acabou o trabalho duplo de manter um arquivo de design e um protótipo dizendo coisas parecidas. O Figma deixou de ser parte do nosso processo de criação e validação. Um pouco desse produto, já publicado, dá para ver no case de Keeps Products, no meu portfólio.
Essa forma de prototipar também facilita o handoff para a equipe de devs. O que se valida é código navegável, com estados, casos de borda e dados de exemplo ao alcance, e não um arquivo de design que alguém precisa interpretar e reconstruir. A Central de Homologação, que mostrei acima, é um exemplo: o time percorre as áreas, confere os casos difíceis e registra as correções direto no repositório.


O custo escondido
O Figma nunca foi só um lugar para desenhar telas. Para o marketing, era uma bancada de montagem. Dava para pegar uma tela, separar um card, levantá-lo em camadas, colocar num mockup, aplicar vidro, sombra e perspectiva. Tudo isso sem escrever uma linha de código.
Quando a interface virou código, essa liberdade sumiu para quem não trabalha com código. Ninguém decidiu tirá-la. Ela foi uma consequência.
Percebemos isso recentemente, numa demanda de marketing: o preparo da apresentação do TalentOS, um deck com dezenas de slides. Não havia contexto em Figma para recorrer, porque tudo tinha sido feito do zero, já em código. O designer gráfico precisava de imagens da interface com elementos isolados: um card flutuando sobre o notebook, um modal em destaque, uma vista explodida. O que existia eram prints. Para isolar um componente a partir de um print, a única saída era redesenhá-lo à mão.

A tentativa óbvia: só prompt
Se existe IA generativa de imagem, por que não pedir? Tentamos. Com prompts longos, bem escritos, cheios de parâmetros.
O resultado tinha sempre a mesma cara: o estilo "padrão" de imagem gerada. E a IA errava justamente no que importava: ou separava componentes demais, ou destacava o elemento errado, ou inventava detalhes na interface. Um prompt descreve uma intenção. Não entrega a tela certa, no ângulo certo, com o componente certo isolado.
Vale comparar dois resultados lado a lado. À esquerda, o que saiu só com prompt: a IA reinterpretou a interface. O texto perdeu acentos ("voce", "criacao") e o logotipo virou "kee". À direita, o que saiu de uma cena do stage-viewer: o card, o título, o selo e as informações são os do protótipo, e a IA só cuidou de material, luz e ambiente.


O insight: dar à IA uma base real
A conclusão foi simples e mudou o rumo: a IA precisa receber uma base correta. Se a imagem de entrada já tem a interface real, na posição e na perspectiva desejadas, o modelo deixa de ser o autor da tela e vira um refinador de materiais, luz e ambiente.
Já tinha esbarrado numa versão desse mesmo problema, de outro ângulo, ao produzir vídeo com IA generativa: no experimento com OpenRouter, Veo e Seedance, o que resolvia a cena não era um prompt mais elaborado, era ter uma referência visual concreta para o modelo seguir. Aqui, o padrão se repetiu: a saída depende muito mais da base que você entrega do que do texto que você escreve.
Precisávamos de uma ferramenta que produzisse essa base. Como o protótipo já era código, ela podia morar ao lado dele.



O stage-viewer

O stage-viewer vive dentro do nosso site de protótipos. Ele se conecta diretamente às telas do protótipo, e qualquer pessoa da equipe pode montar cenas sem tocar em código. Na prática:
- Escolhe a tela do protótipo (desktop ou mobile) e navega nela até o estado desejado antes de capturar.
- Aplica a tela real em modelos 3D: notebook, celular ou como uma placa plana. É a tela viva do protótipo, não um print recortado.
- Destaca componentes, e não só telas inteiras: em vez de levar a tela toda, seleciona só o que interessa (um card, um banner, um botão, um modal ou uma parte dele) e o eleva em camada. Dá para capturar a tela com esses destaques ou apenas os componentes escolhidos, como objetos independentes, sem a tela de fundo.
- Controla câmera e luz: ângulo, enquadramento, iluminação, fundo. Dá para importar modelos 3D e compor com vários objetos na mesma cena.
- Exporta a cena em imagem.
A cena pode ser a imagem final, e serve muito bem como base para a IA.
O fluxo completo

- Tela real do protótipo.
- Cena no stage-viewer: dispositivo, componente em destaque, câmera.
- Exportação em PNG.
- Envio para uma IA generativa de imagem, com uma instrução que virou regra de casa: edite a imagem, não recrie do zero. A IA refina material, luz e ambiente e não mexe na interface.
- Retoque em editor de imagem e aplicação no slide.
Nos slides do TalentOS, isso deu consistência: mesma linguagem visual, dispositivos diferentes, e componentes que de fato existem no produto. Uma ideia que surgiu no caminho: usar a mesma cena como quadro inicial e final de animações.
Do mockup ao escritório inteiro





Com o notebook e o celular funcionando, testamos o que mais a ferramenta aguentava. Colocamos o mesmo notebook sobre um modelo 3D de rocha importado, para depois pedir à IA um ambiente escuro e nebuloso. Extrudamos um card de aula em uma peça de vidro. Fizemos o celular ganhar um ambiente de loja. Em cada caso, a cena 3D define composição, ângulo e o que está na tela, e a IA só cuida de materiais, luz e clima.
Um caso mostra por que o ajuste fino importa. Na primeira tentativa do celular na loja, o aparelho estava em um ângulo que produziu uma imagem final ruim.


Como a base é uma cena 3D, o caminho foi reposicionar o smartphone, com o modelo de referência certo, e gerar de novo. A segunda imagem saiu com o aparelho reto no expositor. Em vez de reescrever um prompt, mudamos a posição de um objeto.


O teste mais interessante veio depois: um escritório virtual. É uma maquete 3D simples, com sete pessoas em poses fixas, mesas com monitores, uma mesa redonda, sofá, plantas, janelas e um quadro de atividades. Não tem rosto, textura ou luz realistas, e não precisa ter.

Dentro dela, movemos a câmera como numa sessão de fotos: vista isométrica de cima, câmera na altura dos olhos com lente aberta, vista de cima da mesa, close com profundidade de campo. Cada enquadramento vai para a IA, que o transforma em fotografia.






O que ganhamos é consistência de direção de cena. O quadro na parede, o ripado de madeira, as janelas e a posição das mesas são os mesmos em todas as imagens, porque vêm da mesma maquete. Sem ela, cada prompt inventa um escritório novo.
Lentes e proporções: fotografar a cena
O stage-viewer também tem o vocabulário de quem fotografa. Cada cena aceita lentes (padrão, grande-angular, teleobjetiva, olho de peixe e ortográfica), desfoque com escolha do ponto de foco e proporções de exportação (16:9, 9:16, 1:1, 4:5, 4:3, 3:4, 3:2, 2:3 e 21:9).
Isso muda o que dá para pedir. Com a mesma posição de câmera, o olho de peixe curva o monitor e estica o espaço, enquanto a lente padrão mantém a perspectiva natural.


Um plano retrato em 4:5, com foco no rosto e desfoque no fundo, vira algo entre um retrato e uma cena de escritório. Uma teleobjetiva em 21:9 comprime os planos e mantém em foco o personagem que usa o computador, com os outros em camadas desfocadas.


E o mesmo enquadramento pode sair quadrado, vertical ou panorâmico sem refazer a cena.




Cenas animadas
A ferramenta também anima. Uma linha do tempo por keyframes move o celular ou o notebook, a câmera, a separação dos componentes e as luzes, e o próprio app exporta o resultado em vídeo. Neste exemplo, montei uma coreografia de seis segundos que lembra uma apresentação de produto: a câmera começa baixa e distante, se aproxima de frente e termina numa visão em três quartos, enquanto o celular gira e flutua devagar.

Essas cenas animadas também servem de base para vídeos gerados por IA. Os dois exemplos abaixo nasceram assim: em um, a câmera filma o celular parado; no outro, ela se move em volta dele.
Limites e o que aprendemos
- A IA ainda inventa. Quando geramos sem imagem de referência, alguns componentes saíram errados. Com a base, o problema diminui, mas revisar continua sendo obrigatório (reparou no erro nesta imagem?).
- O PNG sai com o fundo da cena. Para peças com fundo transparente, o recorte é feito depois.
- A IA inventa texto. Nas fotos do escritório, canecas e paredes ganharam frases diferentes a cada imagem ("ideias pessoas impacto", "Pessoas Produtos Resultados"). Na cena do notebook sobre a rocha, alguns rótulos da interface mudaram de nome. Quanto mais realista a saída, mais é preciso conferir texto.
- Direção de arte não desaparece. Em um caso, o elemento flutuou para o lado errado, e foi mais rápido corrigir no retoque do que na cena.
- Não abandonamos o olhar de design. A ferramenta tira a barreira técnica, não o critério. Sem padrão, dá "Frankenstein": tela plana, mockup e efeito misturados.
- Ferramenta interna. O stage-viewer não é público. Ele existe para o nosso time. Mas, se quiser conversar sobre ele, me chame no LinkedIn.
O que fica é uma lição menos sobre IA e mais sobre processo. Quando você troca de ferramenta, você troca junto tudo o que ela fazia sem ninguém pedir. Vale listar, antes de perceber a perda no meio de uma apresentação.
E, para trabalhar bem com IA generativa, quase sempre a pergunta certa não é "qual prompt?". É "qual base eu estou entregando?".
Esse tipo de registro de processo é uma linha que venho puxando por aqui: já escrevi sobre como automatizei a publicação deste blog no LinkedIn via API e sobre os limites da geração de vídeo por IA no post citado acima. São bastidores diferentes da mesma pergunta: onde a ferramenta ajuda, e onde o critério continua sendo meu.
Sobre a Keeps
Trabalho na Keeps, uma empresa de tecnologia educacional que atua com educação corporativa. Nossa proposta é transformar treinamentos em resultados, com experiências de aprendizado eficientes, apoiadas em inteligência artificial e análise de dados.
Hoje temos quatro soluções:
- Konquest: plataforma de LMS/LXP com IA, para a experiência de aprendizagem e a gestão do treinamento.
- Smartzap: transforma o WhatsApp em ferramenta de capacitação.
- Fábrica de Conteúdos: serviço de produção de conteúdo para simplificar as operações de T&D.
- GoLearning: streaming de cursos para pessoas do T&D.
Nosso público são empresas que querem modernizar o treinamento e o desenvolvimento de pessoas, do onboarding aos programas de liderança. Já alcançamos mais de 200 empresas e mais de 500 mil colaboradores.
Foi nesse contexto, o de um time de Product Design que prototipa direto em código, que o stage-viewer nasceu.
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