Bolívar Alencastro

Há Quedas Por Vir

Um relato em cinco tempos sobre Há Quedas Por Vir, de Érica Storer e Sansa: shibari, um escritório suspenso e a queda que nunca chega.

Composição abstrata hiper-realista de uma cadeira de escritório, um fichário sanfonado, um notebook e uma impressora suspensos por cordas vermelhas e pretas de shibari contra um fundo escuro

Fui ao Espaço Arte 1 do Sesc Avenida Paulista, com minha companheira, para assistir a Há Quedas Por Vir.

Divisória 01 — Antes de saber

Não tinha estudado a obra antes de ir. Não tinha lido a sinopse, não sabia da pesquisa que Érica Storer e Sansa vinham desenvolvendo desde 2023, não conhecia nada do histórico de apresentações. Conhecia Sansa — uma amiga tinha me falado do trabalho dela algum tempo antes, do jeito que se indica alguém que vale a pena conhecer. Não conhecia Érica Storer. Tinha visto uma imagem promocional — objetos de escritório, cordas, um corpo de ponta-cabeça — e foi basicamente isso que levei comigo até o Espaço Arte 1. Nenhum enquadramento conceitual prévio, nenhuma frase de curadoria martelando antecipadamente o que eu deveria estar vendo. Só a imagem de um corpo invertido e a lembrança de que aquilo envolvia shibari.

A sinopse eu leria só ao sair. A pesquisa sobre o histórico das duas artistas eu faria no dia seguinte, sentado para tentar escrever sobre o que tinha visto. Essa ordem importa. Existe uma diferença entre aquilo que pensei diante da obra e aquilo que passei a compreender depois de conhecer o modo como as próprias autoras a apresentam — e não quero apagar essa diferença em nome de um texto mais "informado". Prefiro registrar os dois tempos separadamente, porque a pesquisa que vem depois não substitui a primeira experiência: ela reentra nela, ilumina alguns pontos, deixa outros exatamente como estavam.

Talvez por isso este texto não seja exatamente sobre o que a peça significa. É sobre aquilo que fui vendo, aquilo que pensei enquanto assistia, e o que continuou se movendo na minha cabeça depois que a apresentação terminou. Como aquele fichário que, em determinado momento, se abre verticalmente no espaço, talvez seja melhor organizar tudo por divisórias — nem todas fecham por completo, e algumas coisas escapam de uma para a outra.

Divisória 02 — A sala

O Espaço Arte 1 é uma sala ampla, mais parecida com uma sala de ensaio do que com um teatro. Sem plateia fixa, sem coxias: a equipe técnica, de som e de luz, ficava visível o tempo todo, ali, à vista de quem quisesse olhar. No centro, um tapete circular. Sobre ele, um conjunto de objetos suspensos por cordas de shibari: um notebook Dell, uma impressora, uma cadeira giratória, uma luminária de escritório. As luzes focavam esse centro. Em volta, no chão, sem cadeiras, sentava a plateia.

Sessenta minutos sentado direto no chão também é uma experiência do corpo. Nada comparável ao que aconteceria depois no centro da cena, evidentemente, mas eu já ia mudando a posição das pernas, procurando outro apoio, ajustando a coluna. Antes de qualquer coisa acontecer, o meu próprio desconforto já apontava para o de Érica — só que o meu eu podia resolver a qualquer momento, bastava levantar. O dela, não.

A cena montada, objetos de escritório suspensos por cordas no centro da sala, antes do início da performance

Ninguém nos disse onde deveríamos ficar. Formalmente havia uma quantidade grande de possibilidades — o espaço não tinha fileiras, não tinha lugares marcados, não desenhava uma relação palco-plateia convencional. Ainda assim, em poucos minutos, se estabeleceu uma configuração bastante conhecida: a maioria sentou e ali permaneceu; algumas pessoas ficaram em pé; o fotógrafo circulava, porque sua função parecia autorizá-lo a isso. Não atravessamos o tapete para olhar de perto. Não pegamos uma folha do chão no meio da ação. Existem limites ali, mesmo que ninguém os tenha desenhado — talvez numa etiqueta aprendida em outros teatros, talvez na própria luz, que separa simbolicamente um dentro e um fora. Não sei quanto disso pertence ao desenho consciente da obra e quanto resulta apenas das condições do espaço. Essa dúvida costuma me acompanhar em situações assim, e prefiro deixá-la em aberto a resolvê-la à força.

As artistas entraram pela mesma porta que a plateia. Antes, aberta; depois de todos acomodados, fechada — e só então elas entraram por ali. A trilha era feita de ruídos, mas não incômodos: funcionava quase como um ruído cinza, constante, que preenchia o silêncio sem competir com ele.

Nada daquilo tentava se esconder. As cordas, os nós, os pontos de fixação, a própria montagem — tudo ficava exposto antes mesmo de a performance começar, e continuaria exposto durante ela inteira. Não existia o truque teatral clássico em que a maquinaria desaparece para produzir ilusão: o dispositivo já se apresentava como dispositivo. Isso muda o que o shibari significa naquele espaço. Ele deixa de funcionar só como imagem de aprisionamento e passa a expor o próprio trabalho da amarração — nó, tensão, distribuição de peso, cálculo. Não havia mágica ali. Havia trabalho para manter aquilo suspenso, e esse trabalho estava à vista de todos.

Divisória 03 — Ainda funciona

Sansa e Érica vestiam roupas que remetiam a um universo corporativo — camisa clara, saia, sapatos, crachá. Em algum momento, o crachá de Érica se solta e cai; ela o recoloca na camisa sem interromper o que estava fazendo. Registro isso aqui só porque aconteceu, sem querer fazer dele mais do que é.

O que se via ali era trabalho de escritório encenado: atender telefone, manipular notebook, assinar papéis, carimbar, arquivar. Fiquei intrigado com algo específico — esse trabalho não produzia, de fato, nada relevante fora daquela cena. As folhas se perdiam pelo chão. A impressora era acionada e soltava páginas de forma aleatória, sem qualquer necessidade funcional a não ser preencher o espaço com mais papel. Só faz sentido se eu esticar a lógica e pensar a própria peça, a própria arte, como o trabalho que de fato estava sendo produzido ali — o resto é encenação de um trabalho sem serventia para fora daquela sala.

Sansa parecia livre e comandava a cena: fez as amarras, direcionou, moldou. Sua técnica era visivelmente precisa — nós feitos e desfeitos com controle. Em determinado momento, Érica se posiciona sentada de cabeça para baixo numa cadeira, amarrada por Sansa. E dali, invertida, ela continua trabalhando: atende telefone, mexe no notebook, assina, carimba, guarda papéis num fichário grande, erguido e suspenso como uma sanfona enorme. Alguns papéis entram nele sem muito cuidado; alguns caem.

Érica de ponta-cabeça, presa pelas cordas, manipulando um dispositivo enquanto Sansa trabalha ao lado, papéis espalhados pelo chão e o fichário sanfonado à esquerda

O mais perturbador não era exatamente ver alguém de cabeça para baixo. Era ver que isso, por si, não parecia motivo suficiente para interromper o expediente. O telefone toca, ela atende. Chega um papel, ela assina. É preciso carimbar, ela carimba. A normalidade administrativa seguia intacta enquanto a condição física se tornava cada vez mais extraordinária — como se fosse o posto de trabalho que devesse se adaptar ao corpo invertido, e não o contrário.

Fiquei pensando em quanto tempo um corpo suporta ficar assim. Existe um limite, e alguém precisa conhecê-lo com precisão para se aproximar dele sem ultrapassá-lo — Sansa conhece a técnica, Érica conhece o próprio corpo. Foi difícil não levar essa pergunta para fora da performance. A exploração mais eficiente talvez não seja a que quebra um corpo de uma vez; é a que consegue aproximá-lo do limite sem que ele perca a capacidade de continuar operando. Quanto pode ser usado antes que seja preciso interromper? Quem decide que ainda é possível continuar? Existe controle. Existe técnica. Sansa fez toda a amarração com precisão, e foi ela também quem, mais tarde, desfez o nó. Érica não caiu. Foi solta, e se recuperou com tranquilidade, sem pressa, até desligar o computador. As duas saíram de cena. Os objetos continuaram suspensos, mas em desordem — não era mais um escritório organizado.

Detalhe das cordas de shibari amarrando o corpo à cadeira giratória, com uma luminária suspensa ao fundo

Cheguei a pensar naquilo como uma espécie de antigravidade. Depois achei a palavra errada. As cordas não eliminam a força que puxa os objetos para baixo — tornam essa força visível. O que se vê ali é queda interrompida, continuamente, por um sistema de amarração muito preciso: presença da força, não ausência dela. A cadeira devia cair. O notebook devia cair. A impressora, a luminária, o fichário, Érica — tudo aquilo devia cair, e nada cai. Só as folhas de fato caem. Algumas são organizadas de volta; a maioria fica ali, no chão, ao redor do tapete.

Divisória 04 — Trabalho sobre trabalho

Voltando à imagem do fichário: ele entra em cena junto com as artistas — ao menos é assim que me lembro, embora não tenha certeza de que já não estivesse ali desde o início. O que fica é a imagem: quando é erguido, o fichário se abre como uma sanfona, sustentado por forças contrárias. A gravidade puxa para baixo. A corda sustenta por cima. As próprias dobras da pasta resistem à abertura completa — normalmente esse tipo de fichário tende a voltar a um estado mais fechado, nunca totalmente aberto nem totalmente fechado quando manuseado. Um objeto cuja função é organizar e conter documentos passa a ocupar o espaço como uma estrutura tensionada, tanto quanto o corpo amarrado ao lado dele. Ele deveria guardar; não guarda tudo. Escapam folhas dele como escapam de qualquer arquivo.

Uma dessas folhas caiu perto de alguém da plateia. A pessoa a virou, tentando ler o que estava escrito. Entendi o gesto — eu teria feito o mesmo. Diante de um documento, por reflexo, procuramos uma instrução, uma informação, uma finalidade. Talvez porque ainda esperemos que, em algum lugar daquele sistema, exista uma explicação capaz de organizar o resto.

Cena ampla: Sansa manipulando um objeto junto ao rosto de Érica, invertida, o fichário-sanfona à esquerda, papéis e cordas espalhados pelo tapete, plateia sentada no chão ao fundo

E há uma camada de trabalho atrás do trabalho encenado. O que se via em cena — assinar, carimbar, imprimir, arquivar — parecia, isoladamente, vazio, circular, sem função fora dali. Mas essas ações produziam, sim, algo muito concreto: produziam a obra. Érica realiza fisicamente a funcionária, sem precisar ser uma personagem separada dela mesma. Ela é, ao mesmo tempo, artista pesquisando suspensão, trabalho e falha havia anos, e corpo real sustentando aquela posição por um tempo real, medido, controlado. Sansa conduz as cordas dentro da cena, e é também alguém com anos de pesquisa em shibari que tornam possível conduzi-las daquele jeito.

Prefiro não escrever que Sansa amarrou Érica, como se fosse alguém agindo sobre um corpo passivo. Érica se posicionava para ser amarrada — oferecia braço, perna, tronco à estrutura; Sansa realizava a suspensão. Dentro da ficção da cena, o que se vê pode parecer comando de um lado e submissão do outro; no nível da performance, aquilo só existe como colaboração entre duas técnicas. As duas conceberam a obra. Uma equipe técnica montou o espaço. Alguém fotografou. A instituição produziu as condições para que tudo isso acontecesse. Eu, sentado no chão, observei — e, durante boa parte da hora, também fotografava mentalmente a cena em pedaços: um pé, uma mão puxando corda, o rosto invertido, uma folha no chão, como se cada recorte carregasse um sentido que a cena inteira não carrega. Algumas dessas fotografias entram aqui, entre os parágrafos.

Nada daquela cadeia produz no sentido em que normalmente entendemos produção — mercadoria, resultado, lucro. E é exatamente esse não produzir que sustenta a existência das duas como artistas, ali, naquele momento específico. Sem aquela malha de corda, equipe e instituição, não haveria Sansa fazendo aquilo, nem Érica sustentando aquilo — haveria só duas pessoas, sem obra nenhuma.

Essa lógica não fica presa às paredes do Sesc. Antes de tudo isso existiu um edital, um financiamento, uma sinopse, uma crítica — e agora existe esta análise. No dia seguinte, escrevi. Nada disso produz mercadoria; escrever um projeto, esperar uma aprovação, redigir um texto sobre o que se viu não é, em si, produtivo. E é esse trabalho aparentemente sem produto que sustenta tudo o resto: a obra existir, eu estar sentado aqui, escrevendo sobre ela. Este texto também faz parte dessa cadeia — mais uma coisa produzida a partir daquela hora na sala. O escritório suspenso lá dentro é uma miniatura do aparato que colocou aquele escritório em cena.

Talvez seja assim que qualquer estrutura social se sustente — não por imposição constante, mas por consenso, por inércia. A mesma inércia que fez a plateia sentar sem que ninguém dissesse onde ficar. Fizemos as cordas. Fizemos os nós. E somos, ao mesmo tempo, quem amarra e quem está amarrado.

Close do rosto invertido de Érica, ainda presa pelas cordas, segurando um pequeno dispositivo, óculos e cabelos soltos

Divisória 05 — Por vir

Só agora, depois de tudo, o título ganha o peso todo. Durante uma hora assisti à possibilidade de queda sem que ela se realizasse por completo. Érica não caiu. Os objetos não caíram. O fichário foi sustentado até o fim. Só as folhas, de fato, chegaram ao chão.

O título não diz "talvez haja quedas". Diz há — um verbo que afirma, não que hesita. A queda já existe; só está deslocada para depois. Os sessenta minutos que passei ali funcionaram quase como um suspense estrutural — espera-se, consciente ou inconscientemente, por uma queda que nunca chega. Ela está sempre por vir. Nunca agora, sempre depois. Como o colapso de qualquer sistema que já reconhecemos como insustentável e continuamos, ainda assim, sustentando: enquanto isso, continue trabalhando. Talvez a pergunta certa não seja quanto falta para cair. Seja quanto trabalho ainda é necessário para continuar não caindo.

E há uma ambiguidade que só a escrita resolve, porque a fala a apaga: por vir, locução, aquilo que ainda vai acontecer; e porvir, substantivo, o próprio futuro. Falado, o título soa quase como "há quedas porvir" — como se as quedas já pertencessem ao futuro enquanto lugar, e não apenas como evento adiante no tempo. É a própria obra sugerindo que talvez não baste perguntar o que vai cair. Também vale perguntar o que já está, de algum jeito, contido no porvir — o que o futuro, enquanto horizonte, já carrega dentro de si.

Só li a sinopse ao sair da sala, e pesquisei o histórico da obra e das duas artistas no dia seguinte, sentado para escrever. Foi como se a performance ganhasse uma segunda apresentação, essa feita de texto e não de corpo: a cadeira continua sendo a mesma cadeira, mas agora eu sei que Érica já vinha suspendendo escritórios havia anos; a corda continua sendo a mesma corda, mas agora conheço um pouco mais da pesquisa de Sansa. Certas coisas que percebi intuitivamente na sala apareceram nomeadas depois, no texto institucional. Outras — o comportamento da plateia, a atenção que dei à impressora, a imagem do fichário tensionado — continuam sendo só minhas, e provavelmente vão continuar assim.

Close macro de um olho através de óculos redondos, com luz âmbar refletida nas lentes

Saímos antes de descobrir o que acontece com aquela estrutura depois que os corpos deixam de sustentá-la. Talvez as quedas por vir não sejam as de Érica. Talvez sejam as dos objetos que continuam suspensos ali, sem ninguém, depois que as duas já foram embora. A performance termina antes da queda. O que vem depois fica fora do tempo da obra, e nós não ficamos para ver.

Do Sesc, fomos a pé até um restaurante para jantar. Foi ali, andando, que comecei a comentar com minha companheira o que tinha visto — e ela, o que tinha visto ela. Duas pessoas sentadas no mesmo chão, olhando para a mesma cena, guardam impressões que não coincidem por completo. Isso também ficou comigo: a obra não termina igual para quem assistiu junto.

Hoje, no trabalho, meu chefe estava ausente — a avó dele tinha morrido. Outro head, com quem divido parte da rotina, tinha adoecido e sido internado. Não preciso transformar isso em alegoria da peça para notar que a vida seguiu em movimento apesar do trabalho, com seu próprio calendário, atravessando o calendário do trabalho sem pedir licença. Talvez escrever seja também uma tentativa de arquivar o que aconteceu — separar, nomear, colocar cada pensamento numa divisória. Mas nenhum arquivo contém tudo. Algumas coisas permanecem guardadas. Outras escapam, caem, ficam no chão à espera de que alguém, mais tarde, se abaixe para lê-las.

Sobre o autor

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Bolívar Alencastro

Product Designer em São Paulo, atento ao trabalho invisível que sustenta qualquer estrutura antes de ela cair.