Em direção à empresa AI First: Lições do Notion, Fhinck e Gabriel no Distrito
O que significa ser uma empresa AI First? No Gen AI Lab do Distrito, a resposta envolveu construir segundos cérebros para LLMs e reescrever a Lei de Conway.
A transição para modelos baseados em inteligência artificial costuma ser narrada como a adoção de uma nova ferramenta. Você mantém o fluxo atual e adiciona um atalho. No Distrito, em 29 de abril, durante um encontro focado no impacto da IA na gestão e na engenharia, a tônica foi inversa: a inteligência artificial exige desmontar a estrutura original.
O evento fez parte do Gen AI Lab, um laboratório e hub de inovação criado pelo Distrito para conectar startups nativas em IA, grandes corporações e provedores de infraestrutura (como Notion, Oracle, AWS e Microsoft). O objetivo do programa é justamente tirar a inteligência artificial do estágio de testes isolados e integrá-la ao centro das operações de negócios.
As apresentações de Arthur Rozenblit (Notion), Paulo Castello (Fhinck) e Vitor Finger (Gabriel) mapearam diferentes estágios de uma mesma mudança estrutural. Eles não falaram sobre como fazer o mesmo trabalho com mais velocidade, e sim sobre como a natureza do trabalho se reconfigura quando a máquina deixa de ser apenas uma interface e passa a ser um agente.
O Contexto como Infraestrutura
Como já havia ficado claro quando discutimos o GitHub Copilot, para que modelos de linguagem funcionem além de sua base de treinamento estática, eles precisam de contexto atualizado e legível. A limitação imediata de plugar o ChatGPT em um Google Drive é a natureza dos arquivos: apresentações e planilhas exigem interpretação de layout antes da extração de dados. O conhecimento fica preso no formato.
No evento, a adoção do Notion foi descrita não como um sistema de organização visual para humanos, mas como um banco de dados estruturado em texto desenhado para ser consumido por APIs. O conceito de “segundo cérebro”, que antes servia para aliviar a carga cognitiva pessoal, escala para a infraestrutura da empresa. Quando as informações estão nativamente em markdown ou blocos estruturados, os agentes de IA ganham a capacidade de acessar o contexto histórico e operacional sem fricção, tornando-se precisos.
APIs Acima de Interfaces
A Fhinck tomou a decisão radical de operar como uma empresa AI First há três anos, quando as capacidades dos modelos ainda geravam ceticismo. Paulo Castello — que subiu ao palco usando seus discretos smart glasses da Even Realities, rendendo piadas de que estaria “colando” durante a apresentação — descreveu o desgaste inicial dessa escolha: metade da equipe saiu por rejeitar a premissa de que agentes autônomos assumiriam o papel central no desenvolvimento e na execução de processos.
A consequência imediata de colocar a máquina para executar fluxos no n8n foi a obsolescência da interface gráfica. Ferramentas consolidadas como o Jira foram substituídas porque, embora tivessem uma interface familiar para humanos, ofereciam integrações ineficientes para agentes. A nova métrica de avaliação de software corporativo passou a ser a qualidade de sua API e sua aderência ao padrão MCP (Model Context Protocol).
A Fhinck hoje opera com o Notion como sistema operacional e repositório central, onde os agentes leem o que são, para quem trabalham e o que devem executar. Há até mesmo um Agent Builder: uma inteligência artificial designada apenas para gerenciar, aprovar, cobrar e supervisionar as outras dezenas de agentes que operam simultaneamente no desenvolvimento de software.
A Nova Lei de Conway
Na Gabriel, a transição exigiu renegociar o pacto de trabalho das áreas de tecnologia. Vitor Finger detalhou como a velocidade imposta pelos novos fluxos quebrou premissas fundamentais da engenharia tradicional. Se o custo e o tempo para gerar código caem drasticamente, a prática de preservar e evoluir sistemas legados dá lugar à disposição de descartar e reescrever código sem apego.
A mudança estrutural atingiu o modelo de gestão. A divisão clássica entre Produto (o que construir) e Engenharia (como construir) perde sentido quando a execução técnica se torna rápida e autônoma. A Gabriel unificou a liderança dessas frentes. O gargalo deixou de ser a capacidade de codificar e passou a ser a capacidade de fornecer contexto correto e validar o resultado das máquinas.
Para organizar essa validação, a Gabriel passou a usar agentes para criticar o planejamento. Antes de um plano chegar à gestão, um robô emula a perspectiva do CEO exigindo retorno financeiro, outro emula o CPO focado no cliente e um terceiro atua como CTO alertando sobre escalabilidade. Essa fricção artificial garante que o humano responsável entregue propostas já estressadas sob múltiplos pontos de vista, acelerando a aprovação final.
A Máquina como Treinadora
Nem tudo pode ser executado por agentes, especialmente no contexto sensível da segurança pública operado pela central 24 horas da Gabriel. Pessoas ainda precisam atender a chamados críticos. Mas o processo de treinar esses humanos foi invertido: em vez de ler manuais, os operadores praticam com bots que simulam usuários desesperados ou síndicos resistentes à tecnologia.
O robô atua como um supervisor incansável, avaliando o tom de voz e a precisão das informações passadas pelo humano em treinamento, corrigindo desvios com base no contexto unificado armazenado no Notion. A máquina potencializa a eficiência humana antes de assumir o processo inteiro.
O que ficou claro no Distrito é que a adoção da inteligência artificial não é uma camada superficial. Ela exige aceitar mais quebras no ambiente de produção, abraçar a entrega contínua de protótipos e admitir que os sistemas que escolhemos amanhã precisam agradar muito mais aos agentes que os integram do que aos olhos de quem os contratou.