Bolívar Alencastro

A IA nos bastidores: anotações da plateia no Demo Day da Tera

Impressões sobre projetos, critério de uso e o fim do deslumbramento com a IA a partir da plateia do Demo Day da Tera.

Ilustração editorial em estilo thumbnail de YouTube com foco hiper-realista e cores da Tera

Fui ao Demo Day da Tera como ouvinte. O motivo principal era acompanhar a Cassiane Vilvert, minha companheira, que foi professora em uma das etapas da formação e, naquela noite na Casa B2Mamy Coworking, sentou na banca julgadora ao lado de Felipe Bedê para avaliar os trabalhos. Estar do outro lado, apenas observando a dinâmica, me deu um distanciamento útil.

O que se via ali não era a ansiedade de um pitch contest tradicional, onde a energia é consumida na disputa de quem ganha ou perde. Foi bom estar ali e ver uma sala de pessoas genuinamente engajadas, movidas por uma vontade muito prática de construir, testar e iterar. O ambiente era de um rito de aprendizagem, com o aprendizado parecendo ter acontecido de forma bastante horizontal e colaborativa entre as pessoas.

Ouvindo as apresentações e as devoluções da banca, algumas coisas sobre o atual momento da Inteligência Artificial ficaram claras. O curso da Tera parece ter feito um trabalho de desmistificação: a conversa saiu do deslumbramento com a ferramenta e foi para o rigor do uso. A IA, quando ensinada com critério, deixa de ser o show em si e vira infraestrutura.

A banca foi incisiva, mas foi uma dureza de calibragem profissional — um verdadeiro coaching de produto, não uma demolição das ideias. A régua da avaliação estava em saber diferenciar uma simples feature legal de um negócio sustentável. Evitar o uso superficial da IA, provar valor econômico, pensar no desenho do human-in-the-loop.

Ficou nítido que o potencial de alguns desses projetos não estava necessariamente no que era mais fácil de vender visualmente, mas naqueles que buscavam um encaixe rigoroso em dores reais. Entre os trabalhos apresentados — Cortex, Omnidoc, Simira, Shopflow, UX Sense, Milo, Oconcierge, Orbit e Feedback River —, destacaram-se os que não queriam ser mágicos, mas úteis.

É aqui que a relevância de um curso com esse desenho transparece. Mesmo acompanhando apenas esse rito final, ficou nítido que o foco não foi apenas entregar um instrumental sobre como operar modelos ou escrever prompts; o que vi refletido nos trabalhos foi um aprendizado também epistemológico: o "porquê" usar cada ferramenta em cada contexto. Em um tempo onde o excesso de ferramentas satura a atenção (um tema que tem sido constante nas minhas próprias anotações), o critério de uso vale mais do que a capacidade de uso pura e simples.

Se no meu ensaio sobre o "Norte Quântico" eu questionava como o excesso de estímulos digitais acaba virando paisagem, no Demo Day vi um possível antídoto: projetos com potencial que, ao invés de adicionar ruído, usam a IA para filtrar a complexidade e devolver a clareza necessária para seguirmos avançando nesse caminho da tecnologia.

Foi uma boa noite. Voltei para casa lembrando que a tecnologia ainda é, no fundo, sobre pessoas se reunindo para tentar resolver problemas de uma forma mais inteligente.

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Bolívar Alencastro

Product Designer em São Paulo, combinando pesquisa, design systems e estratégia para transformar complexidade em decisões claras de produto — e ocasionalmente buscando sinais humanos em meio ao ruído de algoritmos.