Tudo o que acontece quando fechamos os olhos
Uma mariposa desaparece num banheiro interno. Entre o corpo seco atrás dos vasos, um sonho com cupins, uma mensagem para o pai e séculos de folclore sobre mariposas, um ensaio sobre o que a gente faz com o que não viu.
Um homem nu e um inseto morto.
Eu já tinha visto ela ali semanas atrás. Fiquei olhando. Ela voou de um canto até outro e pousou. Vi os olhos dela, falei em voz alta, meio sem pensar: não era para você estar aqui.
Fechei os olhos. Foi um instante. Quando abri, ela tinha sumido.
Procurei na toalha, no chão, fora do box, no meu próprio corpo. Nada. Olhei para as plantas. Dias antes minha companheira disse que elas não estavam bem, e eu respondi que estavam ótimas, que ali tinha até uma aranha, uma mariposa, tinha vida. A verdade é que as folhas vinham amarelando havia semanas.
Afastei os vasos.
Ela estava ali atrás, seca, caída ao lado da lâmpada de filamento, com as asas ainda erguidas numa posição que guardava alguma coisa do voo.
Sou uma pessoa cética. Busco argumentos racionais para histórias sobrenaturais. Sei que um banheiro tem esconderijo demais para um bicho daquele tamanho: atrás de uma folha, entre o vaso e a parede, na borda do espelho, na janela basculante que dá para a área de serviço. E sei que a cabeça da gente não registra o mundo de forma contínua. Ela preenche buracos, inventa permanência onde só houve imagem interrompida.
Provavelmente eram duas mariposas. Eu encontrei o corpo da primeira no minuto seguinte ao desaparecimento da segunda.
Isso não diminui o que aconteceu comigo. Passei o dia inteiro pensando nesta história.
Naquele primeiro dia, semanas atrás, tinha também uma aranha no banheiro. Joguei água nela até escorrer pelo ralo. Matei a aranha e afastei a mariposa da água. Distribuí vida e morte com uma tranquilidade que na hora não me pareceu nada. A aranha me dava nojo. A mariposa me pareceu delicada. Uma tinha que sumir, a outra merecia ser salva.
Não teve justiça nisso. Teve gosto.
E depois usei as duas como prova de que o lugar estava vivo.
Fui eu que pus as plantas ali, para o banheiro ter alguma coisa de vivo. É um banheiro interno, sem janela para a rua. Fui eu que pus a lâmpada de filamento no parapeito, porque achei bonito, acolhedor. Uma luz azul também, que eu achava que ajudaria as plantas.
Por milhões de anos, os insetos da noite se guiaram pela luz mais distante lá em cima, a lua. Aí a gente começou a acender pequenos sóis dentro de casa. O instinto dela não falhou. O mundo em volta é que mudou.
Cuidado e estrago vindos de um mesmo gesto.
Na noite anterior eu tinha sonhado com uma porta tomada por cupins. A porta continuava de pé, inteira por fora, mas por dentro já era dos insetos. A casa parecia intacta só porque eu ainda não tinha encostado nela.
Nessa mesma madrugada acordei sem ar. Foi a sensação de voltar de algum lugar. Como se por alguns segundos meu corpo tivesse esquecido de fazer uma coisa que faz desde antes de eu ter memória. Respirei com a impressão de ter chegado atrasado na minha própria vida.
Coloquei os pés no chão e fui tomar banho.
É o que eu faço quando tenho medo: procuro o mecanismo. Cupim come madeira. Apneia existe e tem nome. Nada disso é recado.
Mas explicar como uma coisa acontece não decide o que ela passa a significar quando acontece junto de outras.
Enquanto isso eu estava pesquisando outra coisa completamente diferente: a ideia de um deus transgênero. Fiquei pensando em como tanta religião descreve uma divindade anterior ao corpo, ao sexo, à forma, e depois exige das pessoas uma obediência absoluta a categorias corporais. Deus pode estar em tudo, conter tudo, criar cada variação do mundo — mas diante de alguém que atravessa uma fronteira de gênero, de repente a criação tem que obedecer a uma tabela.
A mariposa não prova nada sobre isso. Seria leviano transformar a metamorfose de um inseto em alegoria para a experiência trans. Lagarta não é pessoa. Pupa não é identidade.
Mas ela atrapalha um pouco a nossa certeza de que existir é conservar uma forma só. O mesmo bicho passa por corpos tão diferentes que, sem saber antes, a gente juraria que são espécies distintas. Ela não abandona uma identidade verdadeira para virar fantasia, nem volta para uma essência anterior. Continua sendo o que era justamente porque pôde virar outra coisa.
Talvez o erro esteja em achar que permanecer é ficar parado.
Descobri também que existem umas cento e cinquenta mil espécies de mariposas descritas no mundo. A que morreu no meu banheiro é uma delas e eu provavelmente nunca vou saber qual.
Fui atrás. Pelas fotos, parece ser do gênero Helicoverpa — o mesmo que a agricultura chama de lagarta-da-espiga, lagarta-do-algodão, praga. Procurei alguma lenda, algum conto, algum artista que tivesse trabalhado com aquela espécie. Não achei quase nada. As histórias que existem sobre ela são cartilhas técnicas, notícias de prejuízo, pesquisa de pesticida.
Isso me pegou. A história cultural daquele bicho é a ausência de uma história própria. O adulto claro e delicado que estava no meu banheiro desaparece atrás de uma categoria econômica. Ela virou nome de problema.
A gente classifica para não ser esmagado pela quantidade de formas. Separa o útil do nocivo, o bonito do nojento, o doméstico do invasor. A aranha vai pelo ralo. A mariposa é salva. A planta está bem porque ainda tem folha verde.
Só que a matéria não respeita a segurança dos nomes.
E do outro lado da mesma moeda, a gente deu às mariposas praticamente todos os significados possíveis.
Os gregos usavam a mesma palavra para alma e para borboleta: psyché. Na América, a maior mariposa escura do continente, a Ascalapha odorata, carrega a morte no nome desde antes da colonização. Em náuatle era mictlanpapalotl, mariposa do país dos mortos. Em maia, x-mahan-nah, alguma coisa como morador de casa alheia, a que toma emprestada a casa dos outros. Se entra na sua casa, alguém da família vai morrer. Em espanhol até hoje é mariposa de la muerte.
Só que a mesma espécie, nas Bahamas, é chamada de mariposa do dinheiro: se ela pousa no seu corpo, você vai ficar rico. No Havaí, é o morto que voltou para se despedir. Na Costa Rica virou mariposa da loteria, porque as pessoas leem números nas manchas das asas.
O mesmo bicho. Presságio de morte, promessa de dinheiro, visita de quem já se foi.
E tem a imagem mais antiga de todas, a da mariposa que se joga na chama. Os gregos já usavam isso como provérbio para quem provoca a própria ruína por burrice — a morte da mariposa, o sujeito que se destrói sozinho. Séculos depois, os poetas persas inverteram tudo. A mariposa e a vela viraram o amante e o amado, e queimar deixou de ser erro para virar entrega: só encontra o que procura quem aceita desaparecer dentro daquilo. Santa Teresa falava de arder na vela divina. É a mesma cena. Um bicho pequeno indo na direção de uma luz. O que muda é quem está olhando.
E a mariposa não sabe de nada disso.
Ela não está se sacrificando por amor, não está anunciando morte nenhuma, não está trazendo dinheiro para ninguém. Ela está lendo errado uma informação que funcionou por milhões de anos. Cento e cinquenta mil espécies, e nenhuma delas soube em momento algum o que a gente estava dizendo sobre ela.
Ainda assim eu falei com ela. Em voz alta, sozinho, dentro de um banheiro: não era para você estar aqui.
Também li nesses dias que plantas sob estresse emitem sons ultrassônicos. A versão popular da notícia dizia que as plantas choram. Cientificamente isso é um exagero: são estalos, provavelmente ligados à cavitação nos tecidos que levam água. Ninguém provou dor, nem consciência, nem pedido de socorro.
Mesmo sabendo disso, fiquei preso na expressão. O choro das plantas.
Talvez a gente chame de silêncio tudo o que acontece numa frequência que não consegue ouvir.
As minhas amarelavam na minha frente e eu dizia que estavam ótimas. Nunca olhei a raiz. Nunca medi a luz. Nunca botei a mão na terra. Eu preferia a história que tinha inventado: que meu banheiro tinha virado um pequeno ecossistema.
História também pode ser lâmpada. Ilumina e desorienta.
Ontem mandei uma mensagem para o meu pai.
Contei que eu e o Tobias, quando éramos mais novos, ficávamos incrédulos com o fato de ele não lembrar de certas coisas. A gente perguntava sobre um momento que para nós era nítido e ele dizia que não lembrava. Isso me impressionava. Eram memórias nossas, estavam fresquinhas na nossa cabeça, tinham peso suficiente para ficarem guardadas com clareza. E do outro lado, nada.
Perguntei quais memórias ele nunca esqueceu.
Ele respondeu que não faz muito esse tipo de exercício. Que talvez devesse fazer. Que às vezes lembra de passagens aleatórias. Falou de uma caminhada que fizemos juntos entre a Barra da Lagoa e a Praia Mole, e disse que foi inesquecível — mas que não lembra dos detalhes, das minúcias. Falou das poucas vezes em que levou a gente para as aulas de surf. De uma viagem sem motivo até Gramado. E terminou dizendo que estava ali, andando de ônibus, tentando lembrar de alguns desses momentos.
Fiquei um tempo com isso.
Uma caminhada inesquecível da qual não se lembram os detalhes. Ele guardou a forma e perdeu o conteúdo. Ficou com a posição do voo e não com o voo.
Eu passei a manhã tentando saber há quanto tempo aquele corpo estava atrás dos vasos, e não tem como saber. Uma mariposa seca não informa a hora em que morreu. Meu pai num ônibus tentando lembrar de uma caminhada que ele mesmo chamou de inesquecível.
Não é a mesma coisa, mas é o mesmo problema. A gente chega sempre um pouco depois. E o que encontra já é o que sobrou.
Nada disso precisa formar uma mensagem. É bem possível que o universo não esteja dizendo absolutamente nada. Os acontecimentos não chegam organizados como símbolos — somos nós que aproximamos as coisas e fazemos de uma porta, uma respiração, um inseto e um ônibus partes de uma mesma frase.
Isso não torna a frase falsa. Só quer dizer que o sentido não estava dentro da mariposa, como um órgão. Ele foi feito no encontro entre o corpo dela, a minha memória, a aranha que eu matei, as plantas que eu deixei morrer dizendo que estavam vivas, o sonho, a falta de ar e as perguntas que eu já carregava.
Talvez assombração seja isso: não a aparição dos mortos, mas a hora em que coisas separadas se recusam a continuar separadas.
Ela não era espírito. Era matéria. Tinha patas, asas, olhos compostos e uma história evolutiva muito mais antiga que a minha. A vida dela não aconteceu para me ensinar nada. A morte dela não foi recado.
Mas eu estava lá. E estar diante de alguma coisa também é ser modificado por ela.
Fechei os olhos por um instante e perdi o ponto exato onde ela pousou. Não sei em que momento ela morreu. Não sei quanto tempo aquele corpo já estava ali, atrás das plantas que eu jurava estarem cheias de vida.