Bolívar Alencastro

O sacrilégio necessário

Da sistematização da dança de salão no Brasil aos anos discutindo papéis de gênero na Kirinus Escola de Dança: um ensaio sobre por que inventar um passo novo nunca foi sacrilégio, amarrado a Foli, Victor Wooten, Erin McKean e Tarja Branca.

Ilustração de um dançarino em pleno salto rompendo uma grade geométrica rígida, em tons de azul e verde-água sobre fundo escuro

A dança de salão chegou ao Brasil com os colonizadores portugueses e ganhou força de hábito de corte em 1808, com os bailes da família real no Rio de Janeiro. Por quase dois séculos, porém, ela sobreviveu e se transformou da mesma forma que as nossas mais profundas manifestações populares: de corpo para corpo, no suor da gafieira, no arrasta-pé do sertão, na intuição, sem manual.

A virada para o ensino sistemático é recente e foi fruto de um movimento geracional e coletivo. A partir dos anos 1980, sob a influência de pioneiras como Maria Antonieta, mestres como Jaime Arôxa, Carlinhos de Jesus, Jimmy de Oliveira e João Carlos Ramos decidiram decodificar a boemia. Eles passaram a tratar condução, contato, musicalidade, eixo e postura não mais como um dom místico, mas como uma técnica que se decompõe, se estuda e se ensina. É nesse mesmo intervalo que explode o forró universitário: uma dança de origem nordestina recodificada para caber em coreografias de casal e salas de aula.

A academia e a sistematização nunca foram as inimigas da arte; pelo contrário, são parceiras e multiplicadoras. É o olhar do pesquisador e a ciência do movimento que entendem a biomecânica de um passo, previnem lesões e permitem que o conhecimento chegue a milhares de pessoas com segurança. O ecossistema da dança exige essa simbiose: a pista intui e brinca, a escola estrutura, refina e legitima. O problema aparece apenas na cristalização, quando o método, que deveria ser uma porta de entrada, passa a ser idolatrado como se fosse a única verdade da dança — e qualquer variação fora do cânone vira ameaça.

Foi dentro dessa tensão que vivi meus anos como diretor de arte e marketing da Kirinus Escola de Dança. A escola era um laboratório fértil. Nas aulas com os bolsistas e com as turmas regulares, o corpo docente discutia e testava de verdade os limites do que já tinha virado convenção — sobretudo os papéis de gênero na condução, carregados de uma herança de etiqueta que ninguém ali queria mais manter intocável. Ousamos testar novos caminhos. Influenciamos pessoas a experimentar passos fora da cartilha, abraços que não seguiam o script fixo de "quem conduz" e "quem é conduzido". Foi uma época bonita de se viver, mas também uma época em que parte da comunidade conservadora reagia a essas tentativas como se fossem um erro moral, um sacrilégio contra uma fôrma que tinha pouquíssimas décadas de existência enquanto técnica escrita.

A ironia é que a tradição que esses guardiões tentam proteger nasceu exatamente da mesma experimentação. O mestre djembefola Mansa Camio, no documentário Foli, resume a gênese de todo movimento com uma frase incontornável: tudo é ritmo. O filme prova isso visualmente quando o gesto de uma mulher socando arroz continua, sem quebra de sentido, no braço de um homem batendo no djembê. A energia que sustenta o trabalho é a mesma que sustenta a dança. No Brasil, isso é visceral: o xaxado não existiria sem a pisada arrastada do sertanejo na terra seca; o samba de gafieira não existiria sem a ginga e a malícia herdadas da capoeira, códigos de resistência e sobrevivência nas ruas. A técnica nasceu da vida, não da lousa. Um casal testando uma dinâmica nova numa aula da Kirinus estava fazendo a mesma coisa que os antigos mestres: escutando o próprio tempo.

Cena do documentário Foli: mãos batendo tambor djembê

Foli (2013), dirigido por Thomas Roebers e Floris Leeuwenberg — vídeo com restrição de idade no YouTube, assistir diretamente na plataforma.

A liberdade para essa escuta é o que o baixista Victor Wooten defende na palestra Music is a Language. Ele argumenta que a música se aprende da mesma forma que se aprende a falar: um bebê tem o direito de errar e de "dar uma jam session com profissionais" muito antes de ser corrigido gramaticalmente. Nas aulas que eu acompanhava, o método mais transformador nunca foi engessar o aluno na correção precoce, mas deixá-lo errar dentro do ritmo, tateando o espaço ao lado de quem já era fluente. Um aluno corrigido cedo demais aprende apenas a repetir. Um aluno com espaço para errar aprende a ouvir — e é da escuta, não da repetição, que nasce a criação.

Victor Wooten, Music is a Language (TED-Ed).

E quando a fluência chega, ela pede expansão. A lexicógrafa Erin McKean ensina que na linguagem existem dois tipos de regra: a gramática, que o cérebro absorve naturalmente como lei da física, e o uso, que é pura etiqueta social. "Quem conduz é o homem e quem é conduzida é a mulher" nunca foi gramática de dança; sempre foi uso, uma herança da corte de 1808, e não uma lei intransponível do corpo humano. McKean não pede apenas tolerância para palavras novas, ela clama por mais palavras. Um vocabulário maior na dança a dois, com mais abraços possíveis e alternâncias de condução, é léxico a mais para o corpo expressar liberdades e afetos que a sociedade de dois séculos atrás não tinha como prever.

Erin McKean, Go ahead, make up new words! (TED-Ed).

No fundo, o que o tradicionalismo teme é a perda do controle sobre o ato de brincar. O documentário Tarja Branca nos lembra que a vida adulta sequestra nosso espírito lúdico em nome da seriedade e do "é assim que se faz". Como diz a etnomusicóloga Lydia Hortélio: a criança não vive para brincar, brincar é viver. Propor uma condução compartilhada não é desrespeito; é o mesmíssimo gesto de uma criança alterando as regras do pique-pega para ver o que acontece. Chamar isso de sacrilégio é aplicar o pior do olhar adultocêntrico logo a uma arte cujo material bruto é o corpo brincando com a música.

Tarja Branca: A Revolução que Faltava (2014), dirigido por Cacau Rhoden.

A história humana do ritmo e do movimento nunca suportou ser estanque. A tradição só se mantém viva quando permitimos que o corpo do presente brinque com a herança do passado, num ciclo contínuo onde a intuição cria e a academia fundamenta. Honrar a gafieira, o sertão e a roda de capoeira não significa repetir seus gestos como fantasmas em um museu, mas sim preservar a liberdade subversiva que os forjou. Quando testamos uma nova estrutura ou inventamos um novo abraço, não estamos apagando a história; estamos garantindo o seu futuro. Recusar o próximo passo alegando que ele fere a tradição é desconhecer que a tradição inteira foi construída exatamente assim.

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Bolívar Alencastro

Product Designer em São Paulo, ex-diretor de arte de uma escola de dança, ainda testando o próximo passo antes de nomeá-lo.