O que ainda não deixamos morrer
Nos eventos sobre IA, uma sensação volta com força: estamos outra vez usando antes de compreender direito. O ponto, porém, não é só a IA. É um padrão mais antigo de adoção indiscriminada que atravessa a história humana e continua pedindo a mesma coisa: que algo mude em nós.
A forma recorrente
Essa reflexão ganha corpo enquanto eu circulo por eventos sobre IA e continuo vendo esse tema se espalhar pelo trabalho cotidiano. O fim de semana me dá o impulso para escrever, mas a sensação não fica presa a ele. Em cada palco, demo e conversa de corredor, aparece uma parte diferente do mesmo fenômeno. Uns falam de agentes. Outros, de automação. Outros, de produtividade, interface, infraestrutura, voz. A parábola do elefante volta imediatamente: cada pessoa toca uma parte e tenta descrever o todo a partir daquele contato parcial.
Talvez a dificuldade do presente esteja aí. Ainda estamos tentando nomear com precisão o que está diante de nós, mas o uso já começou. As pessoas estão usando IA de qualquer forma. No trabalho, no estudo, na escrita, na programação, no atendimento, nas buscas. Nem sempre com critério. Nem sempre com clareza sobre custo, limite, risco ou consequência. Mas usando.
É nesse ponto que a sensação deixa de ser apenas tecnológica e ganha espessura histórica. O que está diante de mim não é só uma nova ferramenta se espalhando. É uma forma recorrente de adesão reaparecendo em outro material. A IA apenas torna visível, mais uma vez, algo que atravessa boa parte da história humana: incorporar primeiro, compreender depois, revisar tarde.
Os cadernos de laboratório de Marie Curie ainda são radioativos. Qualquer pesquisador que queira consultá-los precisa assinar um termo de responsabilidade e usar luvas especiais. Ela os carregava no bolso.
Ali cabia menos irresponsabilidade do que desconhecimento. Ela agia dentro do alcance do que aquela época conseguia saber.
No início do século XX, o rádio aparecia em cremes faciais, pastas de dente e tônicos energizantes. As Garotas do Radium afinavam os pincéis com a boca antes de pintar os mostradores luminosos. Muitas morreram com os ossos destruídos. Não se tratava de uma cultura plenamente consciente do risco insistindo nele. Havia fascínio, aplicação e escala antes de entendimento suficiente.
O mesmo aconteceu com o amianto na construção, o chumbo na gasolina, o DDT na lavoura, os CFCs nos refrigeradores. O padrão é antigo. Uma possibilidade técnica aparece, encanta, ganha escala e só depois a sociedade começa a compreender o custo completo do que colocou em circulação. Não estou pensando em um episódio isolado, mas em uma lógica de repetição: a história humana está cheia de adoções que avançam mais rápido do que a maturação do critério necessário para sustentá-las.
Quando o histórico já existe
O ponto decisivo quase sempre está na escala. Um comportamento aceitável para cem pessoas pode ser catastrófico para cem milhões. O que parece promissor no laboratório se transforma em outra coisa quando encontra mercado, cadeia de distribuição, pressão competitiva e uso cotidiano.
A história de Marie Curie aconteceu num momento em que não havia arquivo suficiente (ou, sendo menos generoso com a espécie, talvez o arquivo já existisse e a prudência só estivesse perdendo de novo). A história do chumbo na gasolina, em certa medida, também. Já a inteligência artificial, a engenharia genética e a aceleração climática começam em outra condição.
Aqui já sabemos o suficiente para reconhecer o roteiro antes do ato final. Já vimos o entusiasmo inicial, a expansão desordenada, a demora em medir consequência, a dificuldade de frear interesses instalados. O presente não chega vazio. Ele chega depois de um longo acúmulo de casos.
Temos os cadernos radioativos. Temos os corpos das Garotas do Radium como documento. Temos o século XX inteiro como arquivo de consequências em escala. O conhecimento não chega apenas depois do custo desta vez. Uma parte importante dele já estava aqui antes.
É isso que torna o presente mais difícil de absolver. Já não se trata apenas de desconhecimento. Entra em cena a inércia, o interesse, a disputa por posição e a dificuldade de abandonar respostas históricas que um dia pareceram inevitáveis. O problema não está apenas no que adotamos, mas na forma recorrente como adotamos.
O descompasso já não está apenas entre descoberta e compreensão. Ele está entre compreensão e capacidade de interromper a marcha.
A lógica da corrida
É aí que o problema deixa de ser apenas cognitivo. Mesmo quando o risco começa a aparecer, as estruturas não cedem na mesma velocidade. Empresas seguem investindo, países seguem competindo, setores inteiros seguem expandindo porque recuar custa poder, margem, tempo e posição.
O Dilema do Prisioneiro ajuda a descrever esse mecanismo. Cada ator segue avançando porque teme o custo de parar sozinho. Em corridas armamentistas, em ciclos de extração e em corridas tecnológicas, muita coisa continua não por convicção profunda, mas porque o quadro em volta pune quem desacelera antes dos outros.
A corrida não é irracional. É racional dentro de uma lógica que se retroalimenta. Se eu parar e o outro continuar, fico vulnerável. Então continuo. O outro pensa o mesmo. E assim ambos produzem um resultado que nenhum dos dois desejava individualmente.
Einstein e Bertrand Russell entenderam isso depois de Hiroshima: o poder técnico havia superado a lógica política que o deveria governar. Vencer uma guerra podia significar perder o mundo.
Estruturas que continuam de pé
Muitas estruturas surgiram para lidar com pressões concretas. Crescer, extrair, acelerar, organizar, disputar. Em vários momentos isso respondeu a exigências materiais reais: sobrevivência, expansão, defesa. O problema não começa aí. Começa quando essas estruturas deixam de ser ferramentas que usamos e passam a ser formas que habitamos.
Uma ferramenta pode ser descartada quando já não serve. Uma forma habitada torna-se identidade. Identidade não cede a argumentação. Quando uma estrutura se torna hegemônica, no sentido que Gramsci deu ao termo, ela deixa de se apresentar como escolha e passa a parecer a própria ordem natural das coisas. Questionar o modelo não soa como corrigir uma rota. Soa como questionar o óbvio. A reação ao limite, por isso, raramente é revisão. É resistência. A disputa não é cognitiva. É identitária.
Quando penso nisso, a ideia de superação muda de sentido. Ela deixa de parecer celebração vazia do novo ou condenação simplista do passado e passa a nomear algo mais difícil: a capacidade de separar o que sou das formas através das quais me expresso. O que Habermas chamou de aprendizagem histórica (a capacidade de uma sociedade reorganizar suas instituições à luz do que acumulou) pressupõe exatamente isso: reconhecer que uma estrutura fez sentido em determinado estágio sem concluir que sou ela.
É daí que surge, para mim, a ideia de morte em vida. Não como destruição de pessoas nem como recusa da técnica, mas como morte simbólica de uma forma que já perdeu sentido, realizada antes que ela arraste junto quem a habita. O que precisa morrer é essa obediência quase reflexa a uma lógica que confunde poder de fazer com necessidade de fazer, que trata toda possibilidade técnica como destino e que torna qualquer revisão equivalente ao fim de tudo. Há formas que continuam produzindo dano muito depois de deixarem de produzir sentido.
O que ainda chamamos de necessidade
Nem toda herança histórica precisa ser preservada só porque um dia fez sentido. Nem toda capacidade técnica merece continuidade automática só porque agora existe. Essa distinção entre o que ainda é necessário e o que apenas se tornou habitual é simples de formular e difícil de sustentar quando o que está em jogo é uma forma de ser que já virou identidade.
É isso que sinto quando saio desses eventos sobre IA. O elefante continua no centro da sala, agora rodeado de registros e sinais que mostram que a escala quase nunca espera a compreensão ficar pronta. Saio menos fascinado pelo que as tecnologias conseguem fazer e mais atento ao sistema dentro do qual são adotadas. Porque cada inovação reflete a lógica de quem a mobiliza. Em mãos de uma civilização organizada em torno da competição, a IA acelera a corrida: pode tornar o trabalho mais eficiente, a comunicação mais fluida, a produção mais barata, e ao mesmo tempo ampliar assimetrias e aprofundar o descompasso entre o que é possível e o que é cuidado.
Sigo com mais perguntas do que respostas. Não acredito que a IA seja benéfica por si só. Acredito que ela vai ser o que o sistema que a adota for. E enquanto esse sistema persistir, o padrão vai se repetir com ferramentas mais poderosas e janelas de revisão cada vez mais curtas. O que precisaria mudar não é a ferramenta. É a lógica dentro da qual ela opera: de competição permanente para algo que talvez já tenhamos palavra para nomear. Cooperação — consciente, sem pressa, orientada a um objetivo que valha para o conjunto. Não como resposta pronta, mas como a hipótese que esse padrão, repetido tantas vezes, ainda não conseguimos colocar no centro.
Uma nova mandala, diferente de todas as outras que temos feito até então, para que muitas outras sejam finalmente desfeitas.