O dia seguinte
Sobre ovos, imagem e o momento em que decidi me tornar vegano: uma cena guardada desde a pandemia, uma citação de Bataille e a manhã em que finalmente a fotografei.
A imagem existia desde a pandemia, mas eu nunca soube o que fazer com ela.
Eu a via com clareza: ovos espalhados pelo chão do banheiro, ao redor dos meus pés, e a água do banho abrindo caminho entre eles até o ralo. Nada além disso. Nenhuma narrativa, nenhum gesto explicado. Apenas a composição, insistente, retornando de tempos em tempos.
Nunca fiz a fotografia porque, para mim, os ovos ainda eram alimento. Levá-los para o chão apenas para fotografá-los significaria desperdiçar comida em nome de uma imagem que existia somente na minha cabeça. Entre o ovo e a fotografia, eu sempre escolhia o ovo.
A cena permanecia adiada, intacta e sem custo, justamente porque nunca precisava existir.
Em junho de 2026, decidi me tornar vegano. Ainda havia alguns ovos na geladeira e, com eles, surgiu um problema que eu não esperava. O impedimento que mantivera a fotografia apenas na imaginação havia mudado de forma.
Eu já não pretendia comer aqueles ovos, mas eles continuavam sendo alimento. Poderia doá-los, cozinhá-los para outra pessoa ou lhes dar qualquer destino que não fosse aquele que eu vinha guardando havia anos.
Em vez disso, comecei a esperar que estragassem.
Minha companheira perguntava, de tempos em tempos, quando eu finalmente faria alguma coisa com eles. Eu não respondia direito. Precisava que perdessem a validade, que deixassem de ser, ao menos tecnicamente, alimento, para que descartá-los parecesse menos uma escolha e mais uma consequência.
Se apodrecessem dentro das cascas, eu poderia dizer a mim mesmo que já não estava escolhendo uma fotografia no lugar da alimentação de alguém. Estaria apenas jogando fora aquilo que não servia mais.
Mas os ovos não estavam estragando sozinhos.
Eu estava esperando que estragassem.
Foi somente no dia do meu aniversário, 24 de junho, que contei à minha companheira o que estava fazendo. Expliquei que a imagem não era nova. Vinha de uma leitura antiga, de um livro que eu havia lido durante a pandemia.
Peguei História do olho, de Georges Bataille, e li em voz alta a passagem que carregava desde então:
"A partir dessa época, Simone adquiriu a mania de quebrar ovos com o cu. Para isso, colocava a cabeça no assento de uma poltrona, as costas coladas ao espaldar, as pernas dobradas na minha direção enquanto eu batia punheta para esporrar em seu rosto.
Só então eu punha o ovo em cima do buraco: ela se deliciava a mexer com ele na rachadura profunda. No momento em que a porra jorrava, as nádegas quebravam o ovo, ela gozava, e eu, mergulhando o rosto no seu cu, me inundava com aquela imundície abundante."
Senti vergonha ao ler aquilo em voz alta.
Não apenas pela explicitude da cena, mas por reconhecer nela alguma coisa da lógica que sustentava a minha própria imagem: o ovo retirado de seu uso habitual, deslocado da cozinha e do prato, convertido em outra coisa.
Em Bataille, a transgressão acontece pela ruptura. A casca se quebra, o conteúdo se derrama e se mistura ao corpo, ao prazer e aos seus fluidos. Aquilo que estava fechado perde seus limites e passa a integrar uma matéria indistinta.
Na cena que eu guardava, nenhum ovo se quebrava.
Eles permaneciam inteiros, fechados dentro das cascas. Apenas estavam fora do lugar: do prato para o chão, do alimento para a imagem.
No dia seguinte, 25 de junho, tirei os ovos da geladeira, espalhei-os pelo chão do boxe, fiquei descalço entre eles e abri a água.
Fiz a fotografia que havia adiado durante anos.
Depois, descartei os ovos.
A água passava entre as cascas e seguia até o ralo, um círculo metálico, sem pálpebra, voltado para cima. Também ele parecia um olho, recebendo continuamente aquilo que escorria.
Havia na água uma promessa de passagem. A ideia de que tudo flui, de que nada permanece igual, de que o rio muda enquanto também modifica aquilo que toca. Eu já não era exatamente a mesma pessoa que comprara aqueles ovos. Meu olhar sobre eles havia mudado, e com ele mudava também aquilo que eu conseguia aceitar.
Mas um rio não transporta apenas renovação.
Ele também carrega resíduos e sedimentos. Modifica suas margens e conserva, no fundo, aquilo que não desapareceu por ter saído da superfície.
A água do banho contornava os ovos e descia pelo ralo.
Mas só levava aquilo que podia fluir.
A culpa não descia por ali.
A contradição continuava de pé: eu havia decidido me tornar vegano por recusar a exploração animal e, ainda assim, deixara aqueles ovos estragarem para poder fotografá-los, em vez de oferecê-los a alguém que ainda os reconhecesse como alimento.
Não escrevo isso para me absolver, nem para inventar uma pureza que a cena não possui. A fotografia não registra uma chegada. Também não é a prova de que, de um dia para o outro, eu havia me tornado alguém inteiramente novo.
Ela registra uma passagem.
O instante em que uma imagem antiga finalmente pôde existir porque minha relação com aquilo que ela representava havia se tornado impossível de sustentar da mesma maneira.
No dia seguinte ao meu aniversário, os ovos ainda eram os mesmos.
Eu é que já não conseguia ser.