Bolívar Alencastro

Ap 403: memória de um lugar

Um arquivo visual do apartamento 403 em Florianópolis: cenas, objetos, luzes e pequenas frases de um lugar vivido ao lado da UFSC e do Bugio Trindade.

Mesa branca com cadeira de madeira e uma muda em garrafa de vidro no apartamento 403

Entre 2022 e 2023, eu mantive um perfil separado no Instagram para registrar o apartamento 403. A conta se chamava @a.403.p; depois virou @ca.175.sa, nome que ficou guardado para uma próxima publicação sobre a Casa 175, no Rio Tavares. A frequência nunca virou hábito, mas os 16 posts que ficaram guardam uma memória bastante precisa daquele lugar: mesa, cadeira, cama, plantas, quadros, louça, sapatos, luz entrando pela janela.

O apartamento ficava perto da UFSC, onde também fotografei algumas pessoas, e perto do Bugio Trindade, onde dancei bons forrós. Esse pequeno raio entre casa, universidade e bar organizou uma parte da minha vida em Florianópolis. O 403 aparece aqui como o ponto imóvel dessa circulação.

Na mesa da sala uma garrafa jogada ao mar. Um espaço ainda pouco ocupado.

Mesa branca, cadeira de madeira e uma garrafa com planta no apartamento 403
Cena 1. O começo ainda tinha muito branco, muito chão, poucos objetos.

As legendas dos posts chamavam cada conjunto de “cena”. O nome funciona porque quase nada está posando como decoração. As imagens mostram o apartamento em pequenos estados de uso: o café antes de terminar, a cama desfeita, a janela filtrando sol, uma cumbuca na pia, o cachorro atravessando a composição.

Minha calma é o sumo da inquietude. Soma de tropeços e quereres.

Pia e bancada de cozinha com louças, panelas e utensílios no apartamento 403 Café da manhã servido sobre tecido colorido no apartamento 403
Casa também aparece nos rastros das refeições: pia, pão, tábua, copo, prato, tempo de preparar e recolher.

Algumas frases vieram de outras pessoas, de livros, de conversas, de citações atravessadas. Outras eram pequenas anotações diretas. Elas dão às fotos uma camada verbal curta, quase sempre sem explicar demais. “Que bom que é você.” “Inner Peace.” “Potável.” “Por onde pisaram meus pés.”

Al final todo se trata de saber habitar casa.

Cama arrumada com travesseiro azul e quadros na parede do apartamento 403
A cama, os quadros e as plantas viraram uma espécie de cenário fixo para observar variações de luz.

O arquivo é doméstico, mas não é neutro. Há uma tentativa de organizar uma relação com o espaço por enquadramento. Aproximar, afastar, repetir, deixar a mesma cadeira aparecer de novo, deixar o mesmo quadro voltar em outra posição. A casa vai sendo lembrada por partes pequenas, como se a memória dependesse desses recortes para continuar acessível.

Que essas fotos te encontrem bem. Que sirvam como janelas, portas, para mundos possíveis.

Pessoa sorrindo na cozinha do apartamento 403 Café e bolo servidos sobre bancada no apartamento 403
Quando pessoas aparecem, a casa deixa de ser inventário e vira encontro.

As fotos não completam o lugar. Elas deixam um mapa parcial: coisas que estavam ali, luzes que aconteceram uma vez, nomes de amigos, comidas, objetos, frases copiadas para não sumirem. O apartamento 403 virou lembrança desse modo: por fragmentos suficientes.

Foram extraídas as imagens dos 16 carrosséis publicados originalmente em @a.403.p, hoje disponível como @ca.175.sa. Depois de remover repetições do próprio retorno do Instagram, ficaram 62 fotografias únicas.

Sobre o autor

Foto de Bolívar Alencastro

Bolívar Alencastro

Product Designer em São Paulo, escrevendo sobre produto, interface, memória visual e os lugares que continuam organizando a vida mesmo depois da mudança.